Para dar inicio a este blogue, nada me parece mais apropriado do que falar do “futebol moderno”. Esta é uma expressão recorrente nos discursos de treinadores e até de jornalistas e tornou-se na discussão mais transversal do mundo do futebol, aplicando-se a todos os campeonatos e equipas. Mas existe, verdadeiramente, uma definição do que é o futebol moderno? Não é fácil chegar a uma conclusão clara.
O primeiro ponto que surge é o seu inicio. Não existe nenhum momento que defina o inicio da era moderna no futebol. Nenhum jogo sintomático de uma abordagem inovadora, nenhum ano desportivo radicalmente diferente dos anteriores. Por aqui se começa a perceber que a expressão “futebol moderno” tem muito de abstracto na sua definição. Para se poder discutir este tema, precisamos de olhar para épocas futebolisticas e não para jogos e, mesmo assim, apenas se nota uma evolução gradual ao longo das décadas. Podemos afirmar que o futebol praticado nos anos 80 era diferente do actual mas apenas em diferenças pontuais. E é aqui que nos devemos focar.
A primeira diferença e, na minha opinião, a mais importante de todas, é o aumento da dimensão física do jogo. Este é o factor chave para que a grande maioria das tais diferenças pontuais tenham passado da teoria à prática. Os futebolistas de hoje em dia são mais fortes e apresentam maior resistência do que há 20 anos atrás. Isto permite que se pressione mais alto, que se contra ataque de forma mais rápida, que se defenda com mais jogadores e sempre com marcações zonais, resguardadas por compensações constantes de jogadores que não param de correr. Permitiu que o meio campo se tornasse mais homogéneo. O jogador que espera, a passo, pela bola ou o que pára depois de a ter recuperado e passado já não existem ou estão em extinção, relegados para equipas menores. Todos têm de correr durante o jogo e isso requer uma maior preparação física. Além disso, os jogadores podem estar mais próximos durante mais tempo, o que diminui a distância média dos passes, diminuindo assim a probabilidade de este sair errado. Mesmo os mais franzinos de hoje conseguem aguentar os 90 minutos em alta rotação. É impossível falar de futebol moderno sem considerar esta diferença física no jogo. Daqui, partimos para outras diferenças.
O meio campo de hoje trabalha mais em conjunto, defende e ataca com todos e é, mais do que nunca, a zona onde o jogo se vai definir. Para isso, os jogadores que habitam esta zona foram ficando cada vez mais parecidos. Os médios defensivos passaram a saber “jogar à bola” e os ofensivos, os chamados organizadores de jogo, passaram a saber defender e lutar pelas bolas. Esta homogeneidade dos jogadores permite que o meio campo de uma equipa de topo actual consiga pressionar mais alto o adversário sem perder qualidade de posse e permite que, pelo contrário, possa defender em bloco baixo para logo sair rápido para o contra ataque com qualquer dos jogadores que tenha recuperado a bola. Muitas vezes, observa-se estes dois comportamentos em diferentes alturas do mesmo jogo, sem sequer haver a necessidade de substituir jogadores. Mais importante do que isso, permite que os jogadores entrem em trocas de posição constantes, parecendo por vezes estar em todo lado, confundindo marcações e abrindo espaços e linhas de passe, mantendo a bola até que um dos médios faça um movimento que abra a defesa, seja uma triangulação, uma finta em posse ou uma assistência para um dos avançados ou mesmo para...outro médio.
Outra diferença a assinalar é o aumento de velocidade dos defesas centrais. Os centrais de antigamente eram jogadores pesadões, habituados a efectuar marcações individuais. Duros de rins, tinham pouca mobilidade e limitavam-se a esperar pelos adversários ou pelas bolas aéreas. Isto obrigava a que as defesas jogassem mais recuadas, receando uma jogada de contra ataque adversário. Ao recuar a defesa, estendia-se o meio campo, de forma a ficar sempre algum médio por perto para apoiar. A única forma de jogar com uma defesa subida era treinar exaustivamente os movimentos de colocação do adversário em fora de jogo. Hoje, os clubes procuram centrais rápidos. Por vezes parece mais importante do que a sua capacidade de corte ou de marcação. As defesas jogam mais subidas não porque passaram a treinar mais o fora de jogo mas também porque confiam que os seus defesas consigam correr atrás dos avançados e recuperar a bola ou, pelo menos, a posição. Este aumento de velocidade permitiu também o uso quase exclusivo das marcações zonais pois aumenta-se a velocidade das compensações. Mas não se pense que todos os defesas centrais passaram a ser velocistas. Os centrais lentos continuam a existir no futebol de topo mas quase sempre acompanhados por um central rápido. Isto faz com que os centrais de hoje joguem sempre em função do seu companheiro de posição, de tal forma que seja quase impossível não os avaliar como uma dupla.
Outra posição que sofreu alterações foi a dos extremos. Cada vez mais se usam estes jogadores para finalizar as jogadas. Deixaram de ir à linha final para cruzar a bola para um qualquer gigante plantado na área e passaram a cortar por dentro, fugindo ao lateral adversário e causando desequilíbrios entre os centrais e o trinco. Optam frequentemente por entrar em velocidade pela área dentro e não é raro finalizar uma jogada. Não é por acaso que os dois maiores goleadores do futebol actual, C. Ronaldo e Messi, sejam extremos. Partem muitas vezes da linha mas rapidamente aparecem na área e raramente os vemos a cruzar bolas. Mas mesmo os extremos mais especializados em efectuar cruzamentos optam frequentemente por cruzar quando chegam à grande área em vez da linha final. Com isto, diminuem o tempo de chegada da bola ao avançado, obrigando os defesas a ter de efectuar movimentos pouco naturais para atacar uma bola aérea que lhes é metida nas costas. Isto também confunde os laterais que ficam sem saber se devem arriscar defender numa situação de 1 para 1 com o extremo que lhes aparece pela frente, ou se podem esperar que venha algum apoio tentando manter o adversário longe da linha final. Nunca sabem se vai correr para a área, para a linha, ou se vai cruzar de onde está.
Além de tudo o que escrevi, não podemos esquecer que, actualmente, nem só as grandes equipas trabalham bem. Todas as equipas das ligas principais e mesmo das secundárias dos vários países trabalham de forma similar, seguindo os mesmo processos. As condições de treino melhoraram e continuam e melhorar. As equipas mais pequenas já não perdem os jogos por não ter condição física para os aguentar. As diferenças entre equipas continuam a existir mas são cada vez mais esbatidas tornando os jogos mais equilibrados. Estas diferenças só não desaparecem totalmente porque estas continuam a ter condições financeiras muito díspares e, por consequência, jogadores de qualidade díspar.
Nenhum destes factores é decisivo “per se”. Existe, entre o futebol moderno e o clássico, mais uma multitude de diferenças que podem ser assinaladas, desde o aumento da habilidade dos guarda redes com a bola no pé até ao tamanho dos calções dos jogadores, mas é o seu conjunto que faz a diferença. No geral, no futebol moderno, as equipas correm mais, defendem melhor e atacam mais em conjunto. O jogo é, agora, mais colectivo do que nunca. Mourinho costumava dizer que apenas o ponta de lança pode ser egoísta mas até isso está a mudar.
Mas não se pense que o futebol moderno seja apenas o resultado de uma soma de factores positivos. Perdeu-se algo pelo caminho. Os jogos são menos repentistas, menos apaixonantes. O romantismo do futebol dos anos 70 e 80 parece ter desaparecido mas isso é uma discussão para outros artigos.

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