quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Braga de Peseiro

António Salvador apresentou José Peseiro para guiar o Braga em 2012/2013
O crescimento desportivo do Sporting de Braga nos últimos anos tem sido algo incontornável no futebol português e até internacional. Passou de equipa do meio da tabela, por vezes a braços com a luta pela manutenção, para um "pequeno grande" do futebol português, frequentemente candidato ao título nacional e permanentemente candidato a uma presença na Liga dos Campeões. Esse crescimento deve muito à gestão cuidada da direcção liderada por António Salvador que conseguiu equilibrar as contas do clube mas também ao trabalho excepcional de alguns dos treinadores que passaram pelo banco minhoto, destacando-se Jesualdo Ferreira, Jorge Jesus, Domingos Paciência e Leonardo Jardim. Foi com estes dois últimos que o Sporting de Braga atingiu aquele que, até agora, é o seu pico desportivo. Não deixa de ser curioso que, para liderar o ataque à época 2012/2013, Salvador tenha escolhido José Peseiro, um treinador que representa uma antítese face ao estilo de Domingos Paciência e Leonardo Jardim. Ao contrário destes dois treinadores, Peseiro não é alguém relativamente inexperiente, que vivia uma curva ascendente na sua carreira. É antes um treinador experimentado, com experiência internacional a nível de clubes e de selecções e que tinha tido uma passagem marcante por um dos grandes do futebol nacional, o Sporting. Mais importante do que isso, Peseiro é um treinador com uma filosofia de jogo marcadamente ofensiva, que dá mais importância à qualidade do futebol em posse do que aos movimentos defensivos. Ao contrário dos seus dois antecessores, excelentes a montar equipas para saber jogar sem bola e tirar o máximo partido das transições ofensivas quando a recuperam, Peseiro é um treinador de domínio de jogo e não de controle de jogo. Isso fez com que o Sporting de Braga desta temporada, sem recorrer a grandes revoluções no seu plantel, quebrasse com as mecânicas de jogo incutidas durante três temporadas. É um trabalho sempre ingrato para quem chega e que se notou nas primeiras jornadas onde o Braga perdeu demasiados pontos e cedo se percebeu que não seria o candidato ao título com que Salvador sonhava. Foi o primeiro desaire desta equipa mas não o único.
José Peseiro aponta sempre à baliza adversária
O Braga, após ter assimilado as ideias do seu treinador tornou-se na típica equipa de Peseiro com todas as suas virtudes e, principalmente defeitos. É inquestionável que se tornou uma equipa ofensiva, marcando uma grande quantidade de golos, muitas vezes a culminar jogadas bem trabalhadas, com movimentações colectivas a mostrar uma grande organização ofensiva. Leva já 53 golos marcados na Liga Zon Sagres, mais 30 golos do que os 23 marcados até à mesma jornada da temporada anterior, um número que não deixa dúvidas. No entanto, ao contrário da época passada em que ocupava o terceiro lugar a um ponto do segundo classificado e a cinco do líder, encontra-se esta época em quarto lugar, a milhas da luta pelo título e a três do terceiro classificado, o surpreendente Paços de Ferreira. O que está, então, a correr mal?  Para encontrar a resposta a esta pergunta teremos sempre de começar por analisar a estatística oposta. O Braga de Leonardo Jardim, na temporada passada, tinha sofrido apenas 14 golos à jornada 26, o que contrasta com os 37 sofridos nesta temporada. O saldo até é melhor nesta temporada, com 16 golos positivos face aos 9 da temporada anterior, mas esta pequena vantagem dilui-se quando vemos que o Braga de Peseiro sofreu golos em quase todas as partidas e que oscilou algumas goleadas com uma grande quantidade de derrotas tangenciais. Das oito derrotas sofridas, apenas três delas tiveram uma diferença maior do que um golo no marcador. Pelo meio há ainda resultados quase surreais, como os empates a 4 bolas com o Olhanense em casa e a 3 com o Beira-Mar, este último em Aveiro. E aqui reside o grande problema do Braga desta época. A incapacidade para controlar o jogo, um defeito que as equipas de Peseiro sempre apresentaram. É normal ver o Braga adiantar-se no marcador, jogando bom futebol e desaparecer a meio da segunda parte, acabando por deixar fugir pontos nos últimos minutos de jogo. A equipa tem grande dificuldade em defender mantendo a bola. Fica presa num limbo querendo defender recuando as linhas sem bola, qual equipa pequena em aflição no jogo, e sair com muita gente para o ataque quando a recupera, expondo-se a contra ataques sem necessidade. O jogo com o Sporting em casa, na jornada 25 é paradigmático disto, onde jogando contra 10 jogadores e parecendo ter tudo para ganhar o jogo, acaba por o perder nos descontos. Talvez tendo-se apercebido disso, para o Dragão, na última jornada, Peseiro tentou montar uma equipa com vista a controlar o jogo a meio campo e, apesar de ter sido esmagada na luta pela posse de bola, até o estava a conseguir fazer mas este tipo de futebol já não está na cabeça dos seus jogadores e o seu jogo foi-se afundando, principalmente quando o Futebol Clube do Porto quis abanar a partida apostando na entrada de extremos rápidos. Peseiro tenta responder da pior forma possível tirando um jogador que sabe segurar a bola, Mossoró e lançando Carlão, um ponta de lança puro cujo jogo não se enquadra numa toada de contra ataque. A ideia era mudar a sua equipa para um sistema em que está rotinada a jogar mas não era isso que o jogo pedia na altura. Com isto, Peseiro mostrou outro dos seus defeitos, a dificuldade em ler o jogo. Costuma montar bem o onze inicial mas demora a reagir às mudanças que ocorrem ao longo dos noventa minutos. As substituições tardias são, aliás, uma das grandes criticas que os adeptos do Braga apontam ao treinador. Para ser justo, tenho de referir que as constantes lesões sofridas pelos seus defesas centrais ao longo da temporada não ajudaram a manter a tal segurança defensiva que falta a esta equipa mas não me parece que seja este o principal problema. É um problema mais geral, da dinâmica da equipa em si, do que particular de uma posição.
Peseiro em dificuldades para agarrar a qualificação para a Liga dos Campeões 
Nunca percebi se António Salvador escolheu José Peseiro com o objectivo de cortar com o passado de forma a que lhe proporcionasse a subida de mais um degrau competitivo ou se apenas olhou para o mercado e viu o treinador madeirense como o mais reputado dos que tinha à escolha mas parece te-lo feito sem pensar na velha máxima de que quando se contrata um treinador, contrata-se uma ideia de jogo. Agora, com as expectativas para 2012/2013 defraudadas, sem apoio dos adeptos e cada vez menos da direcção, parece certo que José Peseiro não continuará no Braga na próxima temporada, mesmo que consiga o apuramento para a Liga dos Campeões, objectivo mínimo a que se propôs e que conquiste a Taça da Liga, cumprindo o sonho de Salvador de ganhar um troféu. Não acho que José Peseiro seja um mau treinador mas não me parece que seja o treinador que este Braga precisa. Curioso ver que os nomes mais fortes apontados para suceder a José Peseiro são os de Domingos Paciência e Paulo Fonseca, treinadores de mentalidade mais defensiva que pôem ênfase no controle de jogo. Terá Salvador aprendido a lição?

2 comentários:

  1. Excelente artigo.

    Quando referes as lesões e outros azares, lembrei-me de duas coisas:

    Primeiro, dos "azares" de Peseiro no Sporting, que fez uma das épocas mais espectaculares deste clube nos últimos 20 anos (se retirarmos as três semanas finais....).

    Segundo, de uma história que se conta de Salazar, a quem queriam convencer que escolhesse determinada pessoa para ministro.

    "Mas esse não é aquele que faliu a empresa X?" dizia Salazar.

    "Bem... sim, teve uns azares, aquilo até estava muito bem organizado".

    "E ele depois organizou também aquele evento Y que acabou por correr muito mal?"

    "´Na realidade sim, foi um azar enorme..."

    "Oh homem, e você quer que eu contrate para Ministro um homem com tanto azar?"

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