Quando comecei a pensar na elaboração deste blogue, logo me surgiu a ideia de criar uma rúbrica onde destacaria jogadores que militam nos chamados clubes médios e pequenos da nossa Liga. Comecei por pensar em jogadores que veria facilmente a integrar o plantel de um dos grandes e foi aqui que encontrei a maior dificuldade. Olhava para os plantéis dos vários clubes e via muito pouca gente que me chamasse a atenção a este ponto, principalmente para integrar o plantel de Benfica ou FC Porto. Transferências internas de sucesso, entre clubes médios/pequenos e grandes, eram comuns nos anos 90 e inicio do século XXI. Quem não se lembra de jogadores como Deco, Zahovic, Edmilson, Emerson, Artur, Paulo Bento, Dimas, Sá Pinto, Nuno Gomes, Paulo Ferreira, Pedro Barbosa, Vidigal, entre outros? Muitos outros falharam, claro, mas isso fazia parte da aposta e, no final de cada temporada, havia sempre um número considerável de jogadores que dava o salto para um dos grandes. Mas este tipo de movimentação tem-se mostrado cada vez mais raro. Deparei-me então com a questão fulcral. Será que os clubes pequenos cada vez mais têm jogadores de pior qualidade ou o problema reside nos clubes grandes?
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| Dimas, Paulo Bento e Pedro Barbosa no Vitória de Guimarães |
Olhando para os grandes, o Futebol Clube do Porto foi o que manteve durante mais tempo a tendência de descobrir jogadores nos clubes mais pequenos, alguns deles com passagens sem sucesso por outro dos grandes, como Varela ou Nuno Valente. Mas essa tendência tem diminuído, preferindo o clube apostar no mercado sul americano e, mais recentemente, no mexicano. Olhando para o plantel actual apenas se notam Maicon, contratado ao Nacional da Madeira e os guarda redes Helton, contratado ao União de Leiria e Fabiano, ex-Olhanense. Varela foi contratado ao Estrela da Amadora mas esteve ligado ao Sporting. Pelo meio, contratou Miguel Lopes ao Rio Ave mas este nunca se impôs no Dragão e após uma passagem de sucesso pelo Braga, acabou cedido ao Sporting onde começa a vingar. Pelas notícias que vão saindo na imprensa desportiva, a sensação que fica é que o FC Porto cada vez mais se afasta desta estratégia de contratação interna. O seu modelo de negócio foi mudando e o seu nível desportivo também. É hoje uma equipa de nível Champions e foi cavando um fosso muito grande face aos pequenos do nosso país. Isto tem tornado o salto desportivo cada vez maior para quem vem de um clube doméstico de pequena dimensão.
O Benfica foi talvez o primeiro dos grandes a abandonar a estratégia de contratação no mercado interno. Após várias épocas de insucesso, estabilizou a equipa e, contrariamente ao rival tripeiro, parece querer retomar esta estratégia. As contratações de Hugo Vieira ao Gil Vicente e de Michel e Luisinho ao Paços de Ferreira parecem revelar esta tendência. Mas o clube, tal como o FC Porto, subiu a sua fasquia de qualidade para níveis altíssimos e acaba por sofrer do mesmo problema. O fosso para os clubes pequenos é cada vez maior e, tal como no Dragão, o ambiente é cada vez menos hospitaleiro para este tipo de jogadores que assim precisam de maior tempo de adaptação, algo que também vai escasseando.
Durante o século XXI, o Sporting apostou imenso na formação, principalmente nos anos em que era treinado por Paulo Bento mas quando diminuiu essa aposta, preferiu contratar fora do país, insistindo em jogadores vindos de clubes consagrados ou em estrangeiros desconhecidos, muitas vezes de qualidade duvidosa. Para um clube cada vez mais engolido pela sua própria crise financeira, espanta que não olhe mais para o nosso campeonato onde poderia descobrir alguns talentos por menos dinheiro. A contratação de Joãozinho ao Beira Mar parece ser um sinal de que algo está a mudar nos leões. Só o futuro o dirá.
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| Joãozinho antes de se transferir do Beira Mar para o Sporting |
Resta o Sporting de Braga. Na sua ascensão a quarto grande do futebol português, tem apostado na contratação de jogadores que passaram pelos outros grandes mas que, por lá, foram perdendo espaço. Este tipo de jogadores, como Hugo Viana, Custódio, Alan, Rúben Amorim, Rúben Micael ou Hélder Barbosa têm constituído a sua espinha dorsal mas não deixou de contratar nos clubes de menor dimensão. Ismaily, Éder, Paulo Vinicius e agora Rabiola são disso exemplo. As movimentações de mercado mais recentes deixam antever que será uma fórmula a repetir e isso é muito importante para os jovens que sonham em subir na sua carreira. O Braga constitui um oásis para estes jogadores.
| Éder com a camisola dos estudantes |
Não me parece que a qualidade dos planteis dos diversos clubes médios/pequenos tenha diminuído ao longo das épocas. Existem vários jogadores interessantes nesses clubes mas a fasquia dos compradores aumentou. Parece-me claro que o FC Porto e o Benfica se têm afastado demais dos restantes clubes portugueses. Os seus orçamentos têm crescido e também a qualidade dos seus planteis. Isso torna a aposta no mercado nacional cada vez mais arriscada para estes clubes, pois exige maior tempo de adaptação para os novos jogadores, tempo esse que estes clubes cada vez menos podem oferecer. Braga e Sporting ainda não apresentam este problema mas possuem estratégias diferentes talvez até pelo seu historial. Mesmo começando a olhar mais para as pérolas do nosso mercado, representam poucas vagas para quem quer subir. Os clubes pequenos sempre foram assolados por problemas financeiros e as vendas que iam fazendo aos grandes ajudavam a sobreviver. Talvez a situação se inverta quando os clubes grandes perceberem que a crise também os afecta e que terão de voltar a olhar para dentro. Pode não demorar muito tempo.



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