Jogar em “pressing” é uma expressão antiga do mundo do futebol mas não significa hoje o que significava há vinte anos atrás. A ideia de jogar em pressão tinha génese defensiva. Baseava-se em encurtar espaços ao adversário, principalmente a partir do momento em que esta entrava no meio campo da equipa defensora, utilizando um misto de marcações individuais aos jogadores desequilibradores e de marcações à zona que tendiam a procurar pressionar o portador da bola com um mínimo de dois jogadores. A ideia de jogo passava por reduzir as oportunidades adversárias e era típico vermos este desempenho em jogos em que o clube em causa não era o favorito, jogando contra uma equipa de valor superior. Com o passar dos anos e a com a entrada no século XXI, a ideia do pressing foi-se alterando. O aumento da dimensão física do jogo, tão característica do futebol moderno, permitiu que a pressão possa ser efectuada durante mais tempo e, principalmente, uns metros mais à frente, já dentro do meio campo adversário, por vezes logo à saída da sua grande área. Isto teve como resultado que a ideia de jogo de pressão passasse a ser ofensiva e não meramente defensiva. Deixou-se de falar em “pressing” e passou-se a falar em pressão alta.
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| Esquema do FCPorto de Mourinho |
Ao pressionar a saída de bola do adversário, mata-se a jogada no seu período embrionário e evita-se o aparecimento no jogo dos jogadores com maior capacidade desequilibradora ofensiva do opositor, normalmente posicionados numa zona mais adiantada da equipa que, assim, não recebem a bola, ou são obrigados a lutar por ela numa zona onde não se sentem confortáveis. Acima de tudo, quando bem feita, a pressão alta permite que a equipa que a faz se mantenha dentro do meio campo adversário por mais tempo, em posse de bola. Aumenta-se assim a probabilidade de criar oportunidades de golo devido ao aumento da proximidade da baliza adversária durante maior número de minutos. O Futebol Clube do Porto de José Mourinho foi o expoente máximo deste tipo de jogo em Portugal e um dos maiores expoentes na Europa, tendo conseguido a glória suprema de conquistar uma Liga dos Campeões, muito à custa da excelente interpretação desta estratégia.
Mas nem tudo são rosas. Não existe estratégia perfeita e esta não foge à regra. À parte da obrigatoriedade lógica de possuir jogadores talhados para a sua interpretação, a pressão alta apresenta um problema que, por vezes, passa despercebido mas que constitui o seu maior defeito. A redução de espaços ofensivos da equipa que a emprega. Quando bem feita, a pressão alta de uma equipa empurra o adversário para trás que, em sufoco, vai fechando as suas linhas cada vez mais perto da sua área diminuindo os espaços para que os jogadores mais criativos possam pensar e desequilibrar. É mais uma estratégia imposta do que escolhida mas o efeito é o mesmo. A equipa atacante passa o tempo em cima do adversário mas cria poucas oportunidades de golo. Sem espaços de penetração, é frequente recorrer a remates de meia distância ou a cruzamentos de probabilidade de sucesso baixa, onde a bola é metida para uma molhada de jogadores e onde os defesas, recebendo-a de frente mantêm-se sempre em vantagem. No fim do jogo, as estatísticas disfarçam esta realidade. Aparece sempre uma posse de bola superior, uma quantidade de ataques anormalmente alta e, tipicamente, um grande número de remates. Mas a verdade é que as oportunidades flagrantes de golo são muito escassas. Em Portugal, o Futebol Clube do Porto de Vítor Pereira tem aprimorado a sua estratégia de pressão alta e, apesar dos elogios de adeptos e jornalistas ao seu futebol, cada vez tem tido mais dificuldade em marcar golos e, assim, vencer os jogos. Basta recordar o jogo contra o Málaga, na primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões onde a pressão exercida pelos dragões sufocou por completo a equipa espanhola e apenas deixou que esta efectuasse um remate durante os 90 minutos. Impressionante, sem dúvida. Mas, para vencer o jogo, o FC Porto teve igual dificuldade. Atacou muito e rematou muito de fora da área, quase sempre mal, mas não conseguia penetrar na área adversária e acabou por marcar um único golo, numa jogada irregular, tendo sido preciso um fora de jogo para que se conseguisse aparecer na cara do guarda redes para facturar. Aparte isso, apenas uma oportunidade digna desse nome. Em Alvalade, frente a um Sporting em claro sub rendimento, o mesmo problema. Os portistas acabaram o jogo com uns impressionantes 64 por cento de posse de bola mas as oportunidades flagrantes foram muito escassas. Lembro-me de apenas duas, uma por Defour e outra por Atsu, e mesmo essas não foram perdidas escandalosas, com os jogadores a aparecerem vindos da ala e sem grande ângulo de remate.
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| Estatistica de jogo do FC Porto vs Málaga |
Existem várias formas de contrariar este problema. Uma delas é através de mudanças de velocidade no jogo, fazendo circular a bola uns metros mais atrás, convidando a equipa adversária e subir um pouco, e, quando esta abre um mínimo de espaço, aumentar a velocidade do jogo colocando a bola nas faixas ou na velocidade do seu avançado através de um passe de ruptura. Outra forma de dar a volta é ter bons rematadores de meia distância que possam marcar um golo a 30 metros sem grande dificuldade. O Futebol Clube do Porto desta época não possui extremos desequilibradores, não tem grandes rematadores de meia distância e Jackson Martinez, que já mostrou ser um grande jogador, não é rápido o suficiente para responder sempre bem às tais acelerações do jogo. Tudo isto vai obrigar Vítor Pereira a rever esta estratégia de pressão alta sob pena de acabar o campeonato sem glória, com um estilo de jogo altamente elogiado e uma série de empates nas mãos.


Excelente artigo.
ResponderEliminarAo contrário da maioria dos adeptos do Porto, considero que o futebol mais bonito dos últimos anos foi conseguido por Jesualdo Ferreira, num jogo rápido a fazer lembrar o Salgueiros de Contra-Ataque de outros tempos, e não o de Mourinho ou Vilas Boas.
Para este tipo de jogo de pressão alta, acrescentaria ainda uma falha neste Porto, que é um verdadeiro marcador de livres: um Timofte, um André Cruz ou outro do género. Neste tipo de jogo ganham-se muitas bolas paradas em frente à área. E é importante conseguir aproveitá-las.
Abcs
Olá, António.
ResponderEliminarObrigado pelo elogio ao artigo.
Em relação ao que escreveste, concordo em absoluto. Uma boa forma de contrariar o problema da falta de espaços causada pela pressão alta é mesmo o aproveitamento das bolas paradas. O FC Porto tem alguns marcadores de livres medianos como Moutinho, Maicon ou Danilo mas não tem nenhum verdadeiro especialista como em tempos teve Timofte, Branco, Doriva ou até Ricardo Fernandes. E também concordo que dava gosto ver aquele Porto de Jesualdo interpretar o contra ataque. Pena que a maioria dos adeptos dos grandes continuem a olhar para essa estratégia como algo reservado apenas às equipas pequenas. Como nota, fica que Jesualdo, com o seu Sporting em frangalhos, enfrentou o FC Porto sem vergonha nenhuma de apostar no contra ataque e acabou por ter as melhores oportunidades do jogo.
Abraço