Quatro defesas, quatro médios e dois avançados. Há décadas que o 4-4-2 é dos sistemas tácticos mais conhecidos e aceites no mundo. Foi o sistema standard da maioria das equipas nos anos 70 e 80 mas foi perdendo protagonismo durante os anos 90 para o 4-3-3, sem dúvida, o sistema táctico do SEC. XXI, não porque tenha sido inventado neste século, mas porque domina amplamente o futebol europeu, excepção feita ao campeonato inglês, onde ainda se observam várias equipas esplanadas em 4-4-2. Em Portugal, a situação não é diferente mas aqui, o 4-4-2 começou a desaparecer mais cedo. Desde o inicio da década de 90, foi sendo substituído pelo 4-2-3-1, sistema tipo da selecção nacional da altura, que acabou por derivar num mais moderno 4-3-3, com a gradual extinção dos organizadores de jogo, os chamados números 10, substituídos por médios centro ofensivos, mais recuperadores e que sabem jogar uns metros mais recuados. É o sistema tipo da Liga Zon Sagres, utilizado pela grande maioria das equipas, desde candidatos ao título a equipas envolvidas na luta pela manutenção. No entanto, o 4-3-3 não é um sistema perfeito e tenho dúvidas que seja o melhor sistema táctico do futebol mas acho-o o mais fácil de implementar e interpretar e, talvez por isso, seja o preferencial da grande maioria dos treinadores actuais. Perante esta abundância, acabam por sobressair as poucas equipas que o recusam, adoptando outros sistemas tácticos, dos quais o 4-4-2 é incontornável. Olhando para a Liga Zon Sagres, identifico apenas duas equipas que jogam habitualmente em 4-4-2, sendo curioso que usam duas variações bem diferentes do mesmo sistema. O Benfica de Jorge Jesus e o Beira-Mar, desde que passou a ser treinado por Costinha.
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| O 4-4-2 clássico do Benfica |
No Benfica, Jesus, talvez aproveitando a saída de Javi Garcia, trinco puro, aproveitou para desenhar um 4-4-2 clássico, com um meio campo disposto em linha, apresentando apenas dois médios centros e dois alas bem abertos. É o 4-4-2 à inglesa, sistema táctico de cariz ofensivo, muito parecido com o sistema que Alex Ferguson gosta de utilizar no seu Manchester United. Este sistema coloca automaticamente a defesa adversária em dificuldades por ter de marcar dois avançados, em vez do tradicional ponta de lança solitário. Esta colocação de dois avançados obriga a que o adversário não possa deixar um dos seus defesas centrais para as sobras das marcações e, face à mobilidade ofensiva, acabe por abrir espaços onde possa aparecer um destes jogadores, após se ter desembaraçado da sua sombra defensiva ou um dos alas que, fugindo ao defesa lateral, invade a grande área, num espaço entre defesas que não pode ser compensado facilmente pelo tal defensor que sobra pois este deixou de o ser. Já não sobra nenhum defesa para a compensação. E é aqui, nas alas, que se encontra a chave ofensiva deste sistema clássico. JJ percebeu bem isso e armou a sua equipa com vários alas desequilibradores, dos quais se destacam Ola John e Sálvio, alas puros, que jogam a grande velocidade e têm criatividade suficiente para entrar no um contra um sem grandes dificuldades. São eles que criam a vertigem ofensiva do Benfica, tantas vezes elogiada ao longo da temporada. São, no entanto, jogadores que não possuem apetência defensiva e que acabam por deixar o meio campo em constante inferioridade numérica quando obrigado a defender. Jesus sabe disso mas achou que valia a pena arriscar. Não foi uma aposta cega. Para isso, olhou para o plantel e percebeu que tinha um jogador que poderia interpretar na perfeição o que este sistema pede para o seu meio campo. Nemanja Matic. É ele quem garante o equilíbrio táctico da equipa e impede que esta se desmorone quando apanhada em contra-pé. Sabe defender e sabe sair com bola mas é a sua inteligência táctica que faz a diferença, permitindo que apareça sempre onde é preciso no momento certo. Dificilmente Javi Garcia, apesar de ter uma qualidade indiscutivel, poderia interpretar este papel tão bem. Carlos Martins seria o jogador natural para jogar ao lado do gigante sérvio mas, com vários problemas físicos desde o inicio da temporada, obrigou Jesus a adaptar Enzo Perez a esta posição. Foi uma aposta ganha. Este é mais discreto que Matic mas tem-se mostrado igualmente eficaz na recuperação e na transição ofensiva, principalmente porque aprendeu a soltar a bola no momento certo. E recupera melhor do que Carlos Martins poderia fazer. Tudo isto funciona bem contra equipas mais fracas, na realidade, a maioria das equipas que o Benfica iria encontrar pela frente ao longo da temporada. Contra equipas mais fortes fica mais exposto e o caudal ofensivo pode não chegar para compensar as oportunidades que, invariavelmente, serão criadas contra si. De forma a diminuir a exposição defensiva da equipa, Jorge Jesus tem optado pela entrada no onze de Gaitan, ala de origem mas mais culto tacticamente que Ola John ou Sálvio. Ora entra para uma das alas, em substituição de um dos referidos jogadores, fechando melhor o flanco em transição defensiva, ora entra em substituição de um dos avançados, assumindo a posição 10, nas costas do ponta de lança, tudo isto sem que deixe de pensar o jogo ofensivamente. A equipa, nesta caso, deixa de jogar em 4-4-2 e passa a jogar num 4-2-3-1 mais próximo do próprio 4-4-2 do que do seu parente 4-3-3. Esta última tem sido a aposta mais frequente neste ultimo terço da época em que saber guardar um resultado pode significar ganhar mais do que apenas os três pontos em causa. Jorge Jesus montou uma equipa de alto risco mas está perto de ganhar a aposta.
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| O 4-4-2 losango do Beira-Mar |
Em Aveiro, mora outra vertente do 4-4-2. Com a época em risco, ocupando um dos lugares de despromoção, a direcção do Beira-Mar decidiu apostar num treinador estreante, com nome feito como jogador, Costinha. O “ministro” pegou na equipa e não teve medo de mudar o 4-3-3 tipo utilizado pelo seu antecessor Ulisses Morais para um 4-4-2 losango, muito parecido com aquele que Paulo Bento celebrizou na sua passagem pela Sporting. E parece ter feito uma aposta inteligente. Apesar de possuir alguns alas razoáveis, o treinador olhou para os seus jogadores e percebeu que tinha vários médios centro de boa qualidade e ainda alguns avançados mais talhados para jogar apoiados na frente, como Yazalde ou Abel Camará, reforçados pelo facto de Balboa e Serginho, alas de origem, conseguirem interpretar a posição de avançado. Aposta assim num meio campo disposto em losango tipico, com Ricardo Dias no vértice defensivo, o regressado ao clube Rui Sampaio e Nildo como interiores e Rúben Ribeiro no vértice ofensivo. Este sistema parece-me o mais adequado para estes jogadores, principalmente para Rúben que, nesta posição, parece outro jogador, mais confortável para mostrar a sua qualidade. Passou vários jogos apagado como ala ou escondido como médio centro do 4-3-3 previamente utilizado. Aparece agora com liberdade de movimentos nas costas dos avançados sabendo cair nas alas como bem entender, sempre apoiado por Nildo, o interior que sobe mais, e assume-se como o grande desequilibrador ofensivo da equipa. Defensivamente, Ricardo Dias é um trinco pouco experiente mas de bom toque de bola e está sempre bem apoiado por Rui Sampaio, o médio interior que recua mais, assumindo, quando necessário, um duplo pivot. Este meio campo apresenta uma dinâmica muito interessante, destacando-se o jogo de pares, com as trocas posicionais entre Rúben e Nildo quando a equipa tem a bola, ou com a ocupação de espaços a dois por Rui Sampaio e Ricardo Dias, quando a equipa a perde. Ficam a faltar soluções no banco para estas posições, algo que não é de estranhar, visto que o plantel fora pensado para uma táctica de 3 médios e não de 4. Ainda passaram poucos jogos ao comando de Costinha mas a qualidade futebolistica aumentou consideravelmente e, a continuar a jogar assim, terá condições de ter uma palavra a dizer na luta pela manutenção.
Resta-me referir que o Nacional da Madeira, agora treinado pelo camaleão táctico Manuel Machado, de regresso ao clube após passagens prévias bem sucedidas, por vezes adopta este sistema, mas não faz dele o seu preferencial.



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